terça-feira, 31 de maio de 2011

ABULIA E ESFORÇO


Um dos problemas que, na minha opinião, afecta hoje em dia uma boa parte dos jovens é uma abulia quase consubstancial. A abu¬lia, como toda a gente sabe, é a falta de vontade ou a diminuição notável da sua energia. Qualquer esforço sustentado se converte num obstáculo incontornável. O fácil, o rápido, o cómodo são objectivos preferíveis. "Bute lá", "é giro", "é altamente", "é fixe", "é uma curte" ... são etiquetas de garantia para as actividades mais diversas. O sacrifício, o esforço, a constância, a vontade, a resistência perante a adversidade, a superação das dificuldades são atitudes antipáticas e, de per se, rejeitáveis.
Ora bem, o convite à facilidade e à moleza que a sociedade faz aos jovens colide com as exigências de uma vida cada vez mais complexa e mais exigente. Deste paradoxo derivam muitos proble¬mas. A comodidade que se oferece aos jovens como chamariz con¬verte-se numa armadilha. Porque o que a vida lhes exige (os estudos, o trabalho, a comunicação ... ) é uma exigência permanente. As famílias tentam dar às crianças uma vida fácil, "fazem-lhes a papinha toda", estimulam o exercício e a defesa dos direitos mais do que o cumprimento dos deveres. Por isso, produz-se com frequência o de¬salento perante o fracasso, a desistência perante o esforço, a escolha do que é mais cómodo, a fuga pelo caminho mais fácil, o abandono de metas distantes ...
É conhecida a fábula das duas rãs que caíram numa vasilha cheia de leite. Uma delas cansou-se e desanimou, não fez nada, ficou pa¬rada e afogou-se. A outra começou a agitar as patas constantemente, com força, tentando desesperadamente não se afogar. Com o seu movimento acabou por converter o leite em manteiga. Colocou-se na parte superior e evitou a asfixia. O esforço, a constância e a atitude positiva salvaram-na da morte.
Um pensamento de Robert Cavett serve-me de epílogo à fábula das rãs: "Uma pessoa não se afoga por cair à água. Só se afoga se lá ficar". Quando as águas descem o rio revoltas e turvas, torna-se ainda mais necessário nadar contra a corrente. Hoje é absolutamente essencial. Descem turbulentas as águas neoliberais do individua¬lismo, da competitividade, do relativismo moral, do presentismo no prazer, do hedonismo a todo o custo, da obsessão pela eficácia a curto prazo ... Torna-se necessário nadar com força contra a força das águas. Só os peixes mortos são arrastados pela corrente.
A sociedade propõe aos jovens modelos atraentes: pessoas que enriquecem subitamente sem qualquer esforço, raparigas que atingem a fama através dos seus devaneios amorosos, rapazes cujos nomes são conhecidos por todos porque deram rédea solta ao seu impulso sexual num programa de televisão. Para atingir essas metas não foi necessário o esforço quotidiano, a repetição monótona de actividades escassamente estimulantes ou a superação de adversidades importantes.
Existem muitas dificuldades. Talvez mais do que nunca. Não penso que os jovens tenham a vida muito fácil. Têm mais coisas, mais meios, mais possibilidades, mas muitos mais obstáculos para poderem avançar. Num momento da sua existência em que uma pessoa mais necessita valer-se a si próprio e valer aos restantes, vê-se condenada ao desemprego e à dependência indefinida. O perigo está em cruzar os braços, em esperar que os problemas se resolvam sozinhos ou que sejam resolvidos pelos outros. O perigo reside em optar por sucedâneos perigosos ou claramente destrutivos. Chama-os a droga, sorri-lhes o álcool, empurra-os a delinquência.
Já vi jovens derrubarem-se perante uma má nota depois de terem realizado um esforço para conseguir passar, ou abandonar
uma corrida que exige um esforço persistente; já os vi desfeitos à primeira negativa amorosa, aborrecidos e abúlicos perante um fim-de-semana em que não lhes organizaram o ócio, desesperados pe¬rante a procura infrutífera do primeiro emprego.
Nem tudo o que temos que fazer na vida é atraente e motiva dor.
Algumas actividades e atitudes são claramente ingratas. Desmoralizar-se é carecer de moral. Quando tudo escurece, quando falta o ar porque nos encontramos no meio de um túnel, o perigo reside em sentar-se a lamentá-lo, em maldizer-se a si próprio e em pôr-se a chorar. Se se continua a caminhar, aparecerá ao fundo a luz e o ar livre.
Cairia num gravíssimo erro se dissesse que todos os jovens correspondem à mesma configuração. Sei que há tantas formas de ser e de reagir quantos os jovens que existem. Falo de uma tendência pe¬rigosa, de uma insidiosa armadilha que deve fazer-nos pensar, aos pais/mães e aos educadores. E, sobretudo, aos jovens. Um sinal de maturidade é não esperar que nos tragam o prémio numa bandeja. Há que ir procurá-lo, há que ganhá-lo. Há que esforçar-se por consegui-lo, não sem dificuldade. A atitude infantil consiste em espernear porque desapareceu.
É preciso educar a vontade. Isso supõe exercitar o controlo da impulsividade e do esforço, manter a constância, superar a adversidade, recuperar-se perante a frustração e criar hábitos de disciplina. Claro que o exercício da vontade exige, paradoxalmente, uma grande força de vontade. Por onde começar? Resolver o problema da vontade é solucionar o enigma do barão de Münchhausen, que se tirou a si mesmo e ao seu cavalo de um pântano puxando-se a si próprio pelos cabelos para cima. Nesse paradoxo se sustenta o pro¬cesso de aprender. De facto, aprender a andar de bicicleta consiste em sentar-se sobre ela e começar a pedalar sem cair. Exactamente o que não sabíamos fazer.
Em 1997, José Antonio Marina escreveu um interessante livro intitulado O mistério da vontade perdida. Explica que desapareceu dos 318 livros de psicologia e das preocupações pedagógicas o conceito de vontade e da sua educação. Nos tratados e manuais, não se encontra a palavra vontade, que foi substituída pela de motivação. "A vontade", disse Marina, "é a direcção inteligente da acção". Estou de acordo. Não se trata de um exercício da vontade por si mesmo, sem uma finalidade inteligente e ética. Há que escolher bem as metas e manter a decisão de as atingir.
Há duas formas básicas de reagir perante o esforço necessário para viver dignamente, perante as inevitáveis dificuldades da vida. Uma é a da rã que se abandona e se afoga. A outra é a do esforço sustentado. A que consegue superar as dificuldades e andar para a frente, partindo em mil pedaços o fatalismo. A que é capaz de con¬verter dois sinais de menos (duas situações adversas) num sinal de mais (um motivo de superação e de optimismo). Não se passa automaticamente de não ter capacidade de esforço a tê-la já desenvolvida. É preciso prática. Não se trata de cultivar uma atitude maso¬quista, mas sim de encaminhar a acção de forma inteligente para uma vida digna. Gandhi dizia: "A nossa recompensa encontra-se no esforço e não no resultado. Um esforço total é uma vitória completa".

Miguel Santos Guerra, No coração da Escola

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