quinta-feira, 3 de março de 2011

PEDAGOGIA DO ELOGIO


A capacidade de reconhecer e celebrar o bom desempenho dos alunos (ou dos professores), a prática de descobrir e valorizar as pequenas coisas que se fazem bem, a atenção às atitudes de humanismo, solidariedade e responsabilidade são os ingredientes fundamentais de uma boa relação pedagógica, preditora poderosa do sucesso educativo.
E uma pedagogia do elogio é tanto mais necessária quanto parece não ocupar grande centralidade nas práticas educativas. A censura e a sanção, as chamadas de atenção face a comportamentos indesejáveis são muito mais frequentes do que as práticas de saudação, de gratificação e de elogio.
Nesta construção de uma pedagogia do elogio retenhamos seis princípios estruturantes:
Princípio da oportunidade - o sentido de oportunidade é muito importante quando se pretende reforçar positivamente determinada acção ou resultado. Deve ser na hora certa que o elogio se enuncia e manifesta.
Princípio da sinceridade - o elogio não pode ser forçado; quem o pratica tem de estar realmente convencido do mérito do que viu e agir então em conformidade. Um elogio mentiroso é contra-producente.
Princípio da especificidade - quando elogia especifique o motivo da satisfação para assim reforçar positivamente o comportamento.
Princípio da pessoalidade - elogiar frente a frente, olhos nos olhos; mas também nos trabalhos que os alunos realizam.
Princípio da positividade - não estrague o elogio com um "mas" que o destrói; concentre-se nos elementos positivos da acção, "esqueça" os secundários menos positivos e guarde-os para outra oportunidade.
Princípio da pró-actividade - use o elogio para reforçar positivamente a acção e para expressar expectativas elevadas para a realização das actividades futuras.
Todos os dias poderemos encontrar reais motivos para elogiar. E seremos melhores fazendo os outros acreditar nas suas potencialidades. São pequenos gestos, pequenos passos que muito podem significar.

PEDAGOGIA DO NÃO


As crianças precisam de uma consistência normativa. Precisam, saber que há formas de comportamento boas e más. Precisam, aprender o significado prático de conceitos como controlo, esforço, obediência, respeito, sacrifício, responsabilidade, renúncia e exigência. Não se podem entregar impunemente ao capricho, à comodidade, ao egoísmo, à libertinagem, à desobediência, ao descontrolo, à falta de respeito e à irresponsabilidade. Há que argumentar, mas não até à exaustão. E há que impor quando não querem entender. As pessoas têm direitos, é claro, porém existe o correlato inseparável dos deveres e das responsabilidades.

Assim escreveu, em tempos, Miguel Santos Guerra, na sua crónica semanal no periódico La Opinion de Málaga. E não podia ser mais oportuna esta reflexão e esta lembrança. De facto, é preciso saber dizer não. Dizer não ao incumprimento dos deveres e das regras, ao desleixo, ao desrespeito, à arrogância. Dizer não aos atrasos sistemáticos, à fala inoportuna, ao desafio petulante. Dizer não à provocação gratuita (porque não interpela e apenas insulta), ao ruído de fundo, ao alheamento.
Evidentemente que é muito difícil ensinar a quem não quer (nestes casos ensina-se, às vezes, o que se é). Evidentemente que não se pode obrigar a aprender a quem não quer. (O verbo aprender, como o verbo amar não se conjugam no imperativo). Mas tem de haver um quadro mínimo de regras que têm de ser cumpridas sob pena de ser impossível a comunicação e, no limite, o ofício docente.
Saber, pois, dizer não. Com firmeza e dedicação. De forma a que o outro possa perceber que esse não é uma preciosa oportunidade de crescimento e convivialidade. Estará talvez na hora de rever os projectos educativos. E de inscrever na teoria e nas práticas, nas paredes e nas consciências alguns destes fundamentais princípios educativos.

PRINCÍPIOS PARA UMA RENOVAÇÃO DA EDUCAÇÃO


1) Princípio da escuta. A escuta é um dos pilares da educação. Sem escuta não há compreensão do outro, não há proximidade, não há adequação, não há a convocação do ser para se inscrever no projeto de aprender. Precisamos de praticar, insistentemente, como defendia Rubem Alves, a escutatória, essa arte de nos centrarmos empaticamente na fala e nos silêncios do outro.
2) Princípio da confiança. A confiança é uma condição sine qua non da educação. Sem confiança nas potencialidades e na perfetibilidade do ser humano não há projeto educativo que possa ter sucesso. Sem confiança na capacidade e no poder transformador dos professores, sem confiança na possibilidade do compromisso de todos, a educação será uma palavra sem sentido.
3) Princípio da proximidade. A proximidade é a base da pedagogia. Sem proximidade o outro é um número que apenas conta para as estatísticas. Educar é estar próximo para perceber os bloqueios, os impasses, os talentos que podem emergir.
4) Princípio da diversidade. Porque a escola não pode mais ser alimentada com a ideia de que podemos ensinar todos como se todos fossem um só. «Tudo é diferente de nós e por isso é que tudo existe», como sustentava Fernando Pessoa. A diversidade é, pois, um princípio vital que tem de ser transposto para a ação pedagógica. Nos métodos, nas atividades, nos tempos, na avaliação. Porque a indiferença às diferenças só gera o insucesso.
5) Princípio da comunidade. Sem o sentido de pertença é difícil haver ambientes favoráveis de aprendizagem. Precisamos de cultivar valores, códigos, sentidos partilhados e comuns.
6) Princípio da flexibilidade. A flexibilidade tem muito a ver com a diversidade, mas é sinónimo. Ser flexível na gestão do agrupamento de alunos e na gestão do tempo (por exemplo) para que a ação educativa se possa adequar às singularidades do outro.
7) Princípio da humanidade. O sentido de humanidade naquilo que fazemos na escola é o que permite fazer crescer as crianças na autonomia, na liberdade, na responsabilidade, no respeito, na compaixão. Este princípio rejeita o excesso de escola (a escola a tempo inteiro que muitas vezes é uma prisão sem sentido), a escola como estação de serviço.
8) Princípio do exemplo. Porque a escola não pode ser só discurso. Tem de ser ação, exemplo, referências concretas. É sabido que ensinamos o que somos. E ensinamos por aquilo que fazemos. Mais do que pensamos.
9) Princípio da exigência. Porque a vida é cruel e vai exigir muito de nós precisamos de promover o rigor, o método, a resiliência, a determinação, o valor do conhecimento. Porque a vida não é um passatempo.
10) Princípio da aprendizagem. Todos estamos na escola para aprender, coisas certamente diferentes, mas complementares. E o trabalho dos alunos é aprender. Quando não aprende não está a cumprir o seu ofício. Não está a crescer, a desenvolver-se. Aprender sempre é o nosso destino e a nossa condição existencial.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

DA PEDAGOGIA


Não existe pedagogia sem alunos, sem pessoas, sem saber científico. Porque a pedagogia tem de ter referentes, sujeitos, objectos. A pedagogia faz-se da relação entre os saberes, os alunos, o professor. Não existe pedagogia sem gostar dos alunos concretos, sem acreditar na per¬fectibilidade do ser humano, sem a com¬paixão. Não existe pedagogia sem o rigor da exi¬gência e a distensão, sem a seriedade e o sorriso, sem a diversidade que com¬bata o alheamento e o tédio.
Não existe pedagogia sem implicação, sem o sentido comunitário, sem a dádiva, a gratuitidade.
E não havendo pedagogia não há ensino (ou dificilmente há); e sem ensino não haverá aprendizagem. E sem aprendi¬zagem não há crescimento. E sem cres¬cimento não há a profissão docente, não há escola.
E para haver pedagogia (e ensino e apren¬dizagem e profissão e escola) tem de haver um esforço de construção de comuni¬dades profissionais, tem de haver a coo¬peração, a procura colectiva das respos¬tas para os infindáveis problemas.
Esta é a pedra angular da sobrevivên¬cia. Os meus leitores já o sentem, já o sabem. Falta agora alar¬gar o círculo dos que o sentem e sabem.
José Matias Alves

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Aprendizagem Activa


Estratégias para Aprendizagem Activa

Perguntas
Comece a sua aula colocando uma pergunta fascinante. De facto, poderá escrevê-la no quadro ou afixá-la de uma outra forma, de maneira que os alunos possam lê-la e começar a reflecti-la antes da aula. Trate a questão durante a aula e sirva-se dela para uma discussão ou virar o assunto para temas semelhantes.
Reflexão sozinho, a dois, em conjunto
Dê uma tarefa aos alunos (por exemplo, perguntas para responder, problema para resolver). Peça-lhes que trabalhem sozinhos entre dois a cinco minutos (reflexão sozinho). De seguida, peça-lhes para debaterem as suas ideias com um parceiro, geralmente o aluno sentado ao lado, durante três a cinco minutos (reflexão a dois). Enfim, peça a algumas equipas para exporem as ideias ao grupo (reflexão em conjunto). Esta técnica foi utilizada com grupos de uma dezena a uma centena de alunos.
Pausa na aula magistral
È importante fazer uma pausa todos os 15 minutos numa aula magistral para dar uma oportunidade aos alunos de completar os apontamentos, de aperfeiçoar os apontamentos que tomaram até ao momento, de consultar os colegas da turma e de colocar perguntas.
Perguntas de exames redigidas pelos alunos
Reúne os alunos por grupos e solicite que reparem (em rascunho) perguntas de exames. Esta técnica pode ser utilizar para revisões ou para preparar o exame real. Esta actividade dá a oportunidade de tratar o material da aula de forma dinâmica, de rever a matéria para o exame, preparar o exame e perceber de uma forma mais adequada as dificuldades na redacção de perguntas de exames concretos e válidos.
Apresentação de um jornal
Solicite aos alunos que leiam um jornal e relatem pelos menos duas vezes por semana o que aprenderem. Podem fazê-lo em papel ou informaticamente, na aula ou nos tempos livres. Pode recompensar os alunos pelos esforços dando-lhes uma nota ou simplesmente apresentando comentários construtivos e didácticos. De uma forma ou da outra, deve-se incentivar os alunos a reflectir pessoalmente acerca do que aprendem e acerca das ligações entre a aprendizagem e as suas vidas.
Esquemas conceptuais
Solicite aos alunos para criarem representações visuais do conteúdo da aula. Trata-se essencialmente de diagramas que mostram as ligações mentais entre uma ideia ou um conceito principal e de outras ideias ou conceitos que os alunos aprenderam. Uma das formas de criar um esquema conceptual é de desenhar círculos que contêm os conceitos e de interligar os círculos com linhas (que podemos anotar). Os esquemas podem estarem criados individualmente ou em grupos, e podem ser apresentados, debatidos e criticados.
Interrogações formativas
Submeta os alunos a breves interrogações para que se possam avaliar. Não se deve dar notas por este tipo de interrogações; deverá debater respostas na aula com o intuito que os alunos possam avaliar a compreensão do conteúdo da aula.
Traduzido e adaptado da 5ª Edição do guia Enseigner à l'Université d'Ottawa: Guide pour les
professeurs et les assistants à l'enseignement.

PROFESSOR BUROCRATA



Numa perspectiva burocrática, o professor é concebido como agente do Estado, sujeito ao cumprimento do dever, entendido como adesão a normas e regras que garantem a boa ordem da sociedade e da escola. O seu primeiro dever é, não para com os alunos, mas para com o Estado, de que é servidor: é o dever de obediência (Formosinho, 1989:56). Neste se incluem os deveres de pontualidade e assiduidade e por eles se mede o bom professor: os deveres de cumprir os progra¬mas e de seguir as normas do Ministério enquadram os aspectos mais propriamente docentes; o dever de obedecer ao reitor, ao director ou ao presidente do órgão directivo ou executivo e de aceitar os cargos de gestão intermédia para que é nomeado ou eleito rege os aspectos mais administrativos.
O "bom" professor é um professor cumpridor das normas e dos regulamentos. Ele serve o Estado, respeita a ordem estabelecida. Não carece de grande espaço para a criatividade e a inovação (Cunha, 1993:34). Não é que deva ser banida a criatividade do professor. Ela deve, isso sim, servir a inovação decretada que ele deve cumprir, a inovação vinda de cima de que ele é simples executor. Assim, face a uma inovação decretada, o "bom" professor mudará de práticas e de atitudes. Como funcionário, ele tem o dever de obediência e a não mudança de práticas implica não cumprimento desse dever, sobretudo se se tratar de actos passíveis de controlo administrativo.
Esta filosofia de que no topo se inova e na base se executa é acompanhada por um conjunto de princípios complementares - o que está escrito é para cumprir, não é seguro que seja permitido fazer o que não está escrito, só é permitido fazer o que está regulamentado, 'que se podem sintetizar no princípio de o que não é explicitamente ordenado é proibido, e corta asas a qualquer vontade de inovar a partir das escolas e dos professores, mais socializados para acautelar-se de modo a não dar um passo em falso que para arriscar a procura de novas soluções para os problemas com que se deparam.

Formosinho, João, Machado, Joaquim, Oliveira-Formosinho, Júlia (2010). Formação, Desempenho e Avaliação de Professores. Mangualde: Pedago

CRENÇAS PEDAGÓGICAS


1. Acreditar (sem a crença na educabilidade do ser humano; sem a crença de que todos podem aprender; sem a crença de que podemos fazer melhor, não há mudanças positivas…; crer para ver; ver para crer)
2. Construir (o futuro não está todo escrito; somos chamados a construí-lo e a escrever algumas frases da história a vir…)
3. Exigir resultados e exigir meios (somos obrigados a apresentar resultados que contratualizamos; mas é também obrigatório a disponibilização de meios…)
4. Definir objectivos SMART (isto é, específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas, temporizáveis, na esfera organizacional e pedagógica)
5. Reconhecer e valorizar as pequenas acções, gestos, vitórias (porque muitas vezes os entraves situam-se ao nível do auto-conceito, da auto-estima…)
6. Reconhecer a importância do obstáculo e dos desafios para a gestão das aprendizagens (porque aprender é ultrapassar obstáculos e vencer desafios…)
7. Olhar e praticar a avaliação como uma entrada na renovação do modelo didáctico (a avaliação tem um largo poder na regulação do trabalho e na implicação dos alunos…)
8. Pensar e gerir o tempo de forma flexível e exigente (os tempos de permanências nos diferentes grupos…)
9. Construir o triângulo dos actores centrais: alunos, professores, pais (numa lógica de partilha de responsabilidade…)
10. Ligar o saber ao sabor (porque o saber desconectado das pessoas e da vida tende a ser desprezado…)
11. Instituir uma cultura de exigência e responsabilidade (como condição sine qua non de saída da mediocridade…)