terça-feira, 20 de abril de 2010

ACERCA DA PACIÊNCIA


Se convidarem as pessoas para dizerem o que lhes vier à cabeça sobre a paciência, obterão respostas do tipo: «Uma mulher resignada, um boi, uma pessoa de idade que deixa passar o tempo». Por outro lado, a impaciência: «Um jovem activo, um chefe que dá ordens de forma arrogante, uma mulher bela e caprichosa». Há portanto muita gente que considera a paciência e a impaciência duas qualidades inatas, como a cor dos olhos ou o comprimento do nariz. Alguns vangloriam-se até da impaciência do marido ou da mulher. «Não consegue estar quieta um momento, não suporta demoras», dizem, como se fosse uma demonstração de vivacidade intelectual ou força de carácter.
Estou, no entanto, convencido que a paciência é uma virtude fundamental. E, para começar, não é realmente inata. A paciência aprende-se, constrói-se com o exercício pertinaz da vontade. A criança é impaciente. Quando tem fome, chora, se a mãe não está, fica desesperada. O adolescente é impaciente, para ele é um castigo estar fechado umas horas na escola. Mas também a criança, também o jovem, se quiserem conseguir alguma coisa num desporto, do futebol à pesca, têm de começar por disciplinar os seus impulsos. Têm de aprender a estar quietos, atentos, e depois explodir quando for o momento, nem antes, nem depois. Têm de repetir pacientemente centenas de vezes o mesmo gesto para o aperfeiçoarem.
Francesco Alberoni, O optimismo

quarta-feira, 14 de abril de 2010

AUTORIDADE, AMOR, EXEMPLO, ESTÍMULO


É preciso que se entenda que a autoridade dos pais, exerci da com constância, coerência e sentido de proporção é factor essencial para que a criança se sinta segura. Ela precisa de conhecer as regras, de ter claros os seus limites. Se tal não for o caso, interrogarão os pais na idade adulta, e de forma inteiramente justa, porque não foram eles capazes de lhes indicar o caminho. É preciso também que se compreenda que o exercício da autoridade pressupõe a transmissão de valores. Esses valo¬res podem ser religiosos ou apenas éticos, mas são herança da família. de alguma forma o que define o comportamento daquele grupo de pessoas, actos de fé do que consideram importante na relação e até na essência da própria existência. Não estou de acordo que se deixe «para mais tarde» a afirmação daquilo em que se acredita, sejam os pais católicos, protestantes ou muçulmanos, ateus ou agnósticos, desde que, é claro, a afirmação de um credo venha guardada no invólucro da tolerância.
A educação vem do exemplo, factor mais forte no moldar de mentes e comportamentos. O único real, dirão alguns. Para a sustentar, porém. é necessário juntar ao exemplo o prémio e o castigo, consequências inevitáveis de atitudes e opções. A noção de que existem consequên¬cias previsíveis para as acções, sejam elas consequências boas ou más dependendo da bondade dos actos, é inescapável, se não queremos assistir, nas gerações futuras, ao espectáculo actual, e absolutamente deplorável, em que figuras de autoridade a perdem, pela manifestação pública da ausência de valores e de princípios. «Coitados, não os sou-beram educar.»
Uma vez estabelecido o princípio geral, existem métodos que tornam mais eficaz o exercício da autoridade. A criança deverá compreender que qualquer acto que pratica tem consequências, e estas não devem ser vistas como punição, mas como algo que decorre naturalmente de uma atitude, como em qualquer circunstância da vida. A retirada de privilégios de uma forma proporcionada e razoável é preferível a um castigo. Entendo mal que se castigue uma criança impedindo-a de fazer desporto ou actividade física. Algo que se prende com a saúde geral da criança não deverá ser retirado.
Muitas vezes a nossa reacção a um comportamento da criança depende menos deste do que do nosso estado emocional, cansaço, dificuldades no trabalho ou outras preocupações que nada têm a ver
com a criança. Por isso é preferível tentar evitar as situações geradoras de conflito.
Há lutas desnecessárias, porque pouco importantes. Alguém me contou que ao interrogar um amigo porque razão deixava o filho usar piercings, este respondeu: «Estou a guardar o «NÃO» para quando ele me pedir uma moto!». Esta história é exemplar. Devemos ser firmes nas questões importantes, tolerantes no que é acessório, se bem que essa distinção não seja universal, e dependa de aspectos culturais. O humor sem humilhação pode ser uma arma importante no esvaziar de situações de tensão.
Um dos poucos princípios que tenho como absoluto, é o da necessi¬dade fundamental de as crianças se sentirem amadas, de um amor forte e seguro, que não depende de comportamentos bons ou maus, e que se prende com a relação quase transcendente entre pais e filhos. Claro que o amor pressupõe, por vezes, atitudes muito firmes e até duras, mas sempre no interesse da criança ou adolescente.
O elogio é o mais poderoso dos estímulos, o prémio o reconheci¬mento tangível do sucesso. Quando era criança, participei num torneio de Judo em que obtive uma classificação que dava direito a uma meda¬lha. Os organizadores da competição, porém, não as tinham encomen¬dado a tempo de serem entregues às crianças no dia da competição. Lembro-me bem da decepção ao perceber como eram incoerentes e imperfeitos os adultos. Sejamos prontos a entregar as medalhas que os nossos filhos conquistaram, sobretudo as medalhas dos afectos, um beijo ou um abraço. Mas também aquela visita prometida ao Jardim Zoológico, ou a ida ao parque para jogar à bola.
Ninguém pode dar o que não tem. Como ser paciente e tranquilo, quando se está impaciente e ansioso? É por isso necessário que os pais tenham tempo para si próprios, para namorar, passar um fim-de-semana a sós, jantar fora, ir ao cinema. Estes tempos de recuperação emocional são fundamentais, em particular quando o quotidiano se torna ainda mais complicado por uma, (ou mais!), crianças com PHDA.

Nuno Lobo Antunes

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O PROFESSOR COMO TREINADOR


O Professor como Treinador e a Avaliação Criterial

Sabia que a melhor hora para aprender uma coisa nova é nas primeiras duas horas depois de acordar e nas últimas duas horas antes de se deitar? Sabia que destacar elementos-chave com cores aumenta a sua probabilidade de memorização em 25%?
Laura Erlauder estudou os últimos desenvolvimentos na investigação neurológica e aplicou-os ao ensino na sala de aula, numa abordagem simultaneamente científica e intuitiva. Empregando a sua experiência como professora e directora de escola, Erlauder resume as principais descobertas e mostra como os professores as podem utilizar na aula, abordando tópicos como:
- a utilização mais eficaz da aprendizagem cooperativa;
- métodos simples para reter a atenção dos alunos ao longo de toda a aula;
- pistas para envolver os alunos na tomada de decisões, de modo a aumentar o seu empenho e sucesso;
- guiões para tornar o conteúdo das aulas mais motivante para os alunos;
- indicações generalizadas para reduzir o stress na aula e na escola.
Cada capítulo fornece exemplos reais, mostrando como as descobertas recentes podem ser utilizadas para melhorar a aprendizagem dos alunos. As ideias e estratégias apresentadas provêm de uma grande variedade de níveis e disciplinas e podem ser utilizadas de imediato na aula para aumentar o sucesso dos alunos.
O ensino “à moda antiga” resumia-se a ensinar, ensinar e ensinar e no fim testar. Este processo determinaria se os alunos se lembravam do que o professor tinha definido como os elementos mais importantes da unidade de instrução. Nos meus tempos de aluna do ensino secundário, lembro-me de ter a sensação de que alguns professores ficavam no fundo da sala a rirem-se quando os alunos não se lembravam das palavras exactas para preencher os espaços em branco de um questionário. Tinha a noção de que os professores queriam pregar rasteiras aos alunos para estes falharem em vez de os orientarem para o sucesso. A “nova” forma de ensinar, ou a mais compatível com o cérebro, tem mais a ver com o papel de um treinador.

Pense no modo como age um treinador desportivo. Este diz aos jogadores o objectivo último: um golo, por exemplo. O treinador demonstra o que é um golo e quais são exactamente as jogadas ou estratégias mais eficazes para os ajudar a conseguir atingir esse objectivo. Ele(a) dá assistência aos jogadores, quer como equipa quer individualmente, segundo uma variedade de métodos para aprenderem e desempenharem essas jogadas. O treinador providencia tempo, recursos, incentivos, modelos das competências necessárias, exercícios práticos e até mesmo claques para ajudar os alunos a aprender as competências necessárias que lhes permitam atingir os seus objectivos. Se a equipa não faz o golo, como esperado, o treinador volta ao quadro de esquemas para descobrir novas e melhores formas de os jogadores atingirem o sucesso.

Agora pense de que forma poderá um professor agir como um treinador na sala de aula. Especifique o objectivo final para os alunos; não faça disso segredo. Revele quais as avaliações exactas que serão levadas a cabo durante a unidade. Proporcione-lhes tempo, recursos, incentivos, modelos e exercícios práticos enquanto age como a sua claque e treinador. Se um aluno apresenta problemas ofereça-lhe formas alternativas de instrução até que tenha compreendido o conceito ou competência. Em seguida, se a avaliação final revelar que o objectivo último da aprendizagem não foi alcançado ao nível desejado, volte ao quadro de esquemas e descubra formas novas e melhores de ajudar os alunos a terem êxito.
Talvez a melhor forma de um professor poder treinar os alunos para um alto desempenho seja através da utilização de critérios. Uma lista de critérios é normalmente um quadro de especificações utilizado pelos alunos como um esforço e guia para o trabalho. A mesma lista é consequentemente utilizada pelo professor como um guia de pontuação para os produtos ou os desempenhos dos alunos. Permite aos professores, alunos e pais conhecerem de antemão o que significa, por exemplo, “excelente” ou “bom” ou “suficiente”ou “fraco” e os detalhes de como atingir cada nível.
As melhores listas de critérios guiam o trabalho dos alunos e a sua avaliação através do critério do produto e do processo. As listas de critérios dão aos alunos expectativas claras de como atingir variados níveis de sucesso (quase como uma “cábula” do que fazer exactamente). Ficamos a saber no Capítulo 2 que estabelecer expectativas académicas claras para os alunos é uma forma de aliviar o stress. A implementação de listas de critérios é um exemplo perfeito disso. Antes de começarem a fazer o seu trabalho, deve dar-se aos alunos, exemplares de trabalhos de cada nível de desempenho e as listas de critérios que pontuarão por último os seus produtos finais.

Tal como um treinador de futebol mostra vídeos de jogadas eficazes e ineficazes, os professores devem mostrar ou apresentar modelos de cada nível de realização definidos na lista de critérios. Autorize que o aluno escolha o nível de desempenho para o qual deseja trabalhar, não deixando lugar a qualquer confusão para os alunos (ou possíveis desculpas)! Finalmente, as listas de critérios dão aos professores uma forma específica e justa de avaliação e feedback para os alunos e também um dispositivo de comunicação com os pais. É muito fácil para um aluno ou um pai contestar uma nota quando essa é apenas a única que é atribuída ao produto final. É muito fácil para um professor defender uma nota de avaliação – se alguma vez se encontrar sob escrutínio – quando este pode exibir, lado a lado, o produto final e a lista de critérios, particularmente, quando o aluno recebeu a lista e os exemplares antes de iniciar o seu trabalho.

Práticas Pedagógicas Compatíveis com o Cérebro
de Laura Erlauder

quarta-feira, 31 de março de 2010

EMOÇÕES E APRENDIZAGEM


Faça uma pausa para recordar a sua experiência escolar mais memorável. Tradicionalmente, quando se pede a um grupo de adultos para o fazer, metade contará uma história engraçada enquanto os restantes descreverão uma experiência negativa, humilhante ou assustadora. Quer seja positiva ou negativa, todas as experiências memoráveis partilhadas estarão carregadas de emoções. As nossas memórias mais fortes estão carregadas de emoções. Quando pensou na sua própria experiência escolar, essas emoções originais poderão ter sido reavivadas desencadeando um sorriso ou um franzir de olhos. Como as memórias estão tão intimamente ligadas às emoções recai sobre os professores uma pesada responsabilidade; todos os dias evocam emoções e moldam memórias nos seus alunos.

domingo, 28 de março de 2010

Pedagogia da Casa do Gaiato


Ora vejam como o Padre Júlio, director da Casa do Gaiato de Paços de Sousa, sabe como educar as crianças cujos pais não podem ou não são capazes de se responsabilizarem por eles:
Dentro da Casa do Gaiato já houve escolas, mas, hoje, apenas restam as oficinas: uma carpintaria, uma serralharia e uma tipografia para formar os gaiatos num ofício e para criar hábitos de trabalho. É graças a elas que surge uma das fontes de receita. A outra são as ajudas. "Não temos nenhum acordo com o Estado, mas temos as pessoas. O povo conhece a obra, comprende-a, ama-a e ajuda-a."
Há não muito tempo, houve uma "quase imposição" de equipas de técnicos às Casas, mas a experiência não foi bem sucedida. "Verificámos que isso destruiria a nossa maneira de ser. Deixaria de ser os pais, as mães e os rapazes: a família. Passavam a ser pessoas desenraizadas do nosso modelo a impor as suas técnicas". Ali faz-se como em qualquer outra família: se algum jovem necessita de um especialista levam-no à consulta. "As famílias também não têm técnicos em casa", justifica. Fonte: JN de 28/3/2020
É claro que a Segurança Social - sempre pronta a ditar sentenças sobre como se deve educar e sempre ágil a controlar política e tecnicamente todas as instituições que se deixam agarrar pelo totalitarismo de pendor socialista que ela veicula - não podia gostar da pedagogia perene, humanista e realista das Casas do Gaiato. O Padre Júlio não lamenta, antes agradece, a falta de apoio da Segurança Social.
E reparem na sabedoria do Padre Júlio, quando ele diz que não é bom os psicólogos e terapeutas estarem dentro da escola. Diz ele: "quando algum jovem necessita de um especialista levam-no à consulta; as famílias também não têm técnicos em casa".
As escolas públicas têm muito a aprender com a Pedagogia das Casas do Gaiato. Simplicidade, humanismo, responsabilização, amor, trabalho e respeito pelos professores e pelas tradições nunca fizeram mal à educação de ninguém. Antes pelo contrário...

PROBLEMÁTICO


Problemático - Um bairro problemático não é, como se poderia pensar, um espaço cujas casas têm problemas nos alicerces ou nos telhados, mas sim um conjunto habitacional que, regra geral, saiu muito mais caro do que o previsto, foi inaugurado por detentores de cargos políticos que discursaram sobre o esforço necessário à concretização daquele projecto e cujos residentes tiveram acesso a essas casas em condições muito favoráveis. Um bairro torna-se problemático quando, após a festa da inauguração, volta a ser notícia por ali se tolerarem situações que nos outros bairros e ruas deste país são consideradas crime. Assistentes sociais, ONG e muitos gabinetes municipais fazem o enquadramento nestes bairros e as soluções propostas passam sempre por pedir mais assistentes sociais, mais dinheiro para as ONG e mais gabinetes municipais agora dotados da novel figura do mediador cultural, para assim continuarem a fazer o acompanhamento dos bairros problemáticos, que, por sua vez, se desdobram em escolas problemáticas e famílias problemáticas. Política e profissionalmente, o problemático é um território de grandes oportunidades para gente com ambições.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Como (não) forjar deliquentes


1. Comece, desde a infância, dando ao seu filho tudo o que ele pede. Assim crescerá convencido de que o mundo inteiro lhe pertence.
2. Não lhe dê qualquer educação moral. Espere que chegue à maioridade para que possa decidir livremente.
3. Quando disser palavrões, ria-se. Isto o animará a fazer coisas ainda mais "graciosas".
4. Não o contrarie nunca, nem lhe diga que está mal algo que faça. Poderia criar-lhe um complexo de culpa.
5. Arrume tudo o que ele deixa espalhado: livros, sapatos, roupa, brinquedos. Assim se acostumará a atirar a responsabilidade para os outros.
6. Deixe-o ler tudo o que lhe caia nas mãos e ver todos os programas de televisão e navegar na net sem fazer a minha ideia por onde "viaja". Cuide de que os seus utensílios - pratos, talheres....- estão bem esterelizados. Porém, deixe que a sua mente se carregue de lixo. Assim aprenderá a considerar valioso o que só é porcaria.
7. Discuta e critique o seu par em sua presença. Assim, não ficará surpreendido nem sofrerá demasiado quando a sua família ficar para sempre destroçada.
8. Dê-lhe todo o dinheiro que quiser gastar, não vá ele suspeitar que para dispor de dinheiro é necessário esforçar-se e trabalhar.
9. Satisfaça todos os seus desejos, apetites, comodidades e prazeres. O sacrifício e a austeridade poderiam produzir frustrações.
10. Ponha-se ao seu lado em qualquer conflito que tenha com os seus professores, vizinhos e amigos. Pense que todos eles têm preconceitos contra o seu filho e que de verdade querem aborrecê-lo.