quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Universalidade e Diversidade das Emoções


“(…)Apesar do escasso conhecimento acumulado sobre os processos e a inteligência emocional em relação às actividades situadas na parte superior do cérebro, seria aberrante considerar que se pode viver à margem das emoções. Todavia, este foi o modelo escolhido pelos humanos desde os começos da história do pensamento, inclusivamente a partir da etapa “civilizada” que nasce nos tempos babilónicos, graças à invenção da escrita. Modelo esse que se prolongou até há menos de uma década. Daí que o século XX nos tenha deixado com a impressão “de uma falta de esplendor” que também está relacionada com o erro de se ter singularizado as emoções como a componente irracional e detestável do ser humano (…).
A sede oficial das emoções está no bairro primitivo do cérebro. Chama-se cérebro reptiliano porque já estava bem configurado nos precursores dos primeiros mamíferos: é um conjunto de estruturas nervosas conhecido como sistema límbico, que inclui o hipocampo, a circunvalação do corpo caloso, o tálamo anterior e uma zona em forma de amêndoa chamada amígdala. Esta é o principal intermediário das emoções. Sempre que uma pessoa reage a uma expressão facial hostil, a amígdala está a activar as primeiras vozes de alarme. Lesionar a amígdala é a forma mais segura de conseguir que uma pessoa fique sem capacidade emocional – é tão mau não saber controlar as próprias emoções como não ter nenhuma. Spock, a personagem extraterrestre de orelhas pontiagudas da série Star Trek, era muito mais inteligente do que os humanos, mas carecia de emoções. Em dado momento do passado, os vulcanianos, a etnia a que Spock pertencia, haviam prescindindo dos vestígios primitivos das suas origens animais e, libertos para sempre das paixões, haviam alcançado um grau muito superior de racionalidade.
(…) A ciência hoje sugere que um organismo inteligente sem emoções estaria, simplesmente, incapacitado de evoluir e não seria mais, mas sim menos inteligente que nós. Se no decurso da evolução, as vantagens de se ter emoções não tivesse superado as desvantagens de não contar com elas, os seres emocionais nunca teriam evoluído. Se hoje continuamos a ter emoções é porque no passado elas devem ter ajudado os nossos antepassados a sobreviver e a perpetuar-se.
(…) Em todos os tempos e lugares, os seres humanos partilharam o mesmo reportório emocional básico. Esta universalidade das emoções básicas supõe um argumento adicional a favor da sua natureza biológica.
(…) Em termos científicos, António Damásio, neurocientista luso-americano, afirma, da sua cátedra de Neurologia da Iowa State University, nos Estados Unidos, que “sem emoção não há projecto que valha”. Tudo começa com uma emoção. Intuíram-no já há meio século alguns homens de acção e a ciência corrobora-o agora. Mas a descoberta mais recente e revolucionária devemo-la a cientistas como Dylan Evans, da Faculdade de Informática de Bristol, ao demonstrar que as decisões - todas as decisões – são emocionais. Qual o desenvolvimento normal de uma decisão? No início há uma emoção. Depois, um processo de cálculo é levado a cabo no qual se vai ponderando toda a informação disponível. Há uma proliferação de argumentos a favor e contra, a lógica da razão não pára de impor-se. Felizmente, no final reaparecem, como uma tábua de salvação, as emoções. Se dantes não sabíamos para que servem as emoções, agora verificamos que sem elas nunca tomaríamos decisões”.
Eduardo PUNSET (2008). Viagem à Felicidade, as novas chaves científicas, Lisboa: D. Quixote.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

HARMONIA E SAÚDE - Meditação Transcendental


Eficiência Única da Meditação Transcendental Verificada através de
Meta-Análise que Combina Muitos Resultados de Investigação num só Estudo

O método mais poderoso e rigoroso para deduzir as conclusões de um vasto corpo de investigação científica é o procedimento estatístico de meta-análise. Publicaram-se quatro meta-análises sobre os efeitos do Programa de Meditação Transcendental comparado com outras técnicas:
(1) Descanso fisiológico. Um estudo meta-análise publicado no American Psychologist reviu os resultados de 31 estudos e, descobriu que a Meditação Transcendental produz mais de duas vezes o nível de descanso fisiológico que se produz simplesmente sentando-se com os olhos fechados.
(2) Menor Ansiedade Característica. Um estudo meta-análise publicado no Journal of Clinical Psychology reviu 146 resultados de investigação e, descobriu que a Meditação Transcendental produz mais de duas vezes a redução na ansiedade característica (ou seja, stress crónico) do que o produzido por outras técnicas.
(3) Maior Auto actualização. Um estudo meta-análise publicado no Journal of Social Behavior and Personality demonstrou que a Meditação Transcendental aumenta a auto actualização em até três vezes o efeito de outras técnicas.
(4) Menor Abuso de Substâncias químicas. Outro estudo meta-análise publicado no Alcoholism Treatment Quarterly, revelou que a prática da Meditação Transcendental produz uma redução maior e mais duradoura no consumo de álcool, drogas e cigarros do que outras técnicas ou programas de educação preventiva.
Estes estudos de meta-análise verificam que o Programa de Meditação Transcendental é único nos seus benefícios holísticos. É único porque o programa desenvolve todos os níveis da vida individual: corpo, mente, sentidos, intelecto, ego; ao avivar a sua base comum, a Consciência Transcendental.
CONCLUSÃO:
Convite para Implementar a Educação Baseada na Consciência
Os resultados de centenas de trabalhos de investigação científica sobre o Programa de Meditação Transcendental, junto com as cinco décadas de experiência educativa mundial, indicam que as universidades e escolas de qualquer nação que apliquem esta abordagem para a educação desfrutarão do florescimento de todos os aspectos da vida de estudantes e professores, num ambiente de aprendizagem mais harmonioso e vital.

Trabalhos científicos foram publicados nas maiores revistas científcas, incluindo: Science, The Lancet, Scientific American, American Journal of Physiology, International Journal of Neuroscience, Experimental Neurology, Electroencephalography and Clinical Neurophysiology, Psychophysiology, Physiology and Behavior, International Journal of Neuroscience, Biological Psychology, Psychosomatic Medicine, Canadian Medical Association Journal, Hypertension, Stroke, American Journal of Cardiology, American Journal of Health Promotion, American Psychologist, British Journal of Education Psychology, Intelligence, Journal of Personality and Social Psychology, Journal of Counseling Psychology, The Journal of Mind and Behavior, Academy of Management Journal, Criminal Justice and Behavior, Journal of Offender Rehabilitation, Journal of Clinical Psychiatry, Journal of Conflict Resolution, and Social Indicators Research.

Seis volumes de estudos de investigação científica indicam a exequibilidade dos nossos programas em criar invencibilidade na consciência nacional.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Profecias que se auto-realizam




Porque é que aquilo que previu, muitas vezes se realiza?

Um sketch de Raymond Devos começa assim: “Há oito dias, li no meu horóscopo: discussão e discórdia em casa. Fui ter com a minha mulher e perguntei-lhe: ‘O que é que eu te fiz?' Ela respondeu: ‘Nada’; e eu disse-lhe: ‘Então porque é que estás a discutir?’ E depois ficámos zangados. Hoje de manhã li no meu horóscopo: risco de acidente. Então, durante todo o dia, ao volante de meu carro, fiquei assim!... A vigiar à direita e à esquerda… nada… nada… Disse de mim para comigo: ‘Se calhar enganei-me’… Bastou o tempo suficiente para verificar no jornal que tinha no assento do passageiro e… pumba… já está. O condutor saiu do carro… e disse-me: ‘ Podia ter evitado o meu carro…’ Respondi-lhe: ‘De forma alguma, estava previsto, o acidente já vem no jornal…”.

Este sketch é divertido pois mostra de que forma as nossas crenças e os nossos conhecimentos errados podem levar-nos a comportarmo-nos de uma forma tal que as nossas crenças ficam então confirmadas de seguida. Os investigadores chamaram a este mecanismo: as profecias que se auto-realizam. De acordo com esta teoria, as nossas expectativas levam-nos frequentemente a provocar, sem o sabermos, as situações nas quais acreditamos. Estas situações reforçarão, então, as nossas expectativas anteriores.
Voltamos a encontrar as “profecias que se auto-realizam” na corrida dos países ao armamento. Os Estados Unidos esperaram que a URSS se mostrasse hostil e ameaçadora para eles. Decidiram, portanto, aumentar a quantidade de mísseis. A URSS, por sua vez, interpretou este acontecimento como uma ameaça para a sua segurança e tomou a decisão da aumentar o seu armamento. Os Estados Unidos traduziram esta reacção como uma confirmação daquilo que pensaram de início (este exemplo funciona igualmente se começarmos pela URSS).
Outro exemplo: é um homem e pensa que a rapariga que tem ao telefone é muito bonita. Comportar-se-á, certamente, de forma muito mais amistosa e calorosa do que se lhe tivessem dito que aquela pessoa não tinha graça nenhuma. A sua atitude provocará muito mais retorno de comportamentos amistosos e sociáveis da parte da sua interlocutora. Isto poderia confirmar a sua primeira ideia de que é um grande sedutor ou ainda de que, decididamente, tinha razão em pensar que as mulheres belas são muito mais simpáticas do que as feias.
Assim, mesmo que estejam erradas, as crenças que se tem relativamente a um indivíduo com o qual se interage podem influenciar o seu comportamento.
Foi o que demonstrou um investigador (Snyder, 1984, 1992). Numa das suas investigações apresentava, sob um pretexto qualquer, a estudantes a fotografia de uma pessoa com a qual deviam entrar em contacto telefónico. A fotografia representava tanto uma pessoa obesa como uma de peso normal. Era pedido aos sujeitos que construíssem uma opinião sobre o indivíduo da fotografia a partir da entrevista telefónica.
Convém mencionar que, na população estudada (estudantes americanos), os sujeitos associavam frequentemente a obesidade a características desagradáveis e negativas. Não é, portanto, surpreendente que os resultados tenham mostrado que, após o telefonema, as mulheres que pensavam estar a conversar com uma pessoa obesa tinham uma impressão muito mais desfavorável sobre o seu interlocutor do que aquelas que julgavam estar a conversar com uma pessoa de peso normal. De igual modo, comportaram-se de uma forma muito mais desagradável. Consequentemente, a pessoa que estava do outro lado do fio reagiu de maneira negativa, confirmando, assim, as crenças iniciais dos sujeitos, a saber, que as pessoas gordas são pessoas desagradáveis.

Estas profecias aparecem em muitas situações…
Jamieson e colegas (1987) realizaram uma investigação no terreno na qual apresentaram um novo professor aos alunos no início do ano. Numa turma, os investigadores explicaram que este novo professor era uma pessoa muito competente e muito inteligente. Numa outra condição, não era dito nada às crianças (grupo de controlo).
Os investigadores observaram o comportamento dos alunos sem que estes se apercebessem e, algumas semanas depois, puderam estabelecer o balanço seguinte: em comparação com o grupo de controlo, os alunos que tinham a expectativa de ter um professor competente tiveram melhores notas e avaliaram o professor como sendo o mais competente da escola. Os investigadores notaram também que havia menos falatório nessa turma e que as crianças estavam mais atentas às aulas do que na outra condição. Podemos dizer que as expectativas dos alunos respeitantes ao novo professor afectaram os resultados escolares…

domingo, 4 de janeiro de 2009

PAZ ACTIVA


Se queres a paz, prepara a paz. Devia ser a regra número um que a todos vinculasse. Sobretudo quando se trabalha na educação.

Uma bela reflexão para este inicio do ano de 2009. A paz tem de começar dentro de nós, em nós e para connosco mesmo e para com os que nos rodeiam. Votos de uma Ano Novo cheio de muito amor, compaixão e paz, paz interior, paz nos corações, paz à nossa volta, paz no mundo.
«Existe uma tentação extremamente subtil e perigosa para confundir a paz com a simples ausência de guerra, como se fôssemos tentados a confundir a saúde com a simples ausência de doença, ou a liberdade com a ausência de prisões. Por exemplo, «coexistência pacífica» é uma expressão que significa ausência de guerra e não paz verdadeira. Passemos, então, a definir «paz positiva» como o começo da compreensão mútua, do respeito e consideração pelo outro como diferente de nós. A paz positiva é aquilo que chamo coexistência dos espíritos e dos corações. Esta definição é válida para a paz entre grupos, nações, blocos, etc...»

Dominique Pire em «Construir a Paz»

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Trabalho e Sofrimento dos Professores


Trabalho e Sofrimento, segundo Freud


Vamos analisar a perspectiva de Freud sobre o trabalho. Freud não escreveu textos especialmente dedicados ao trabalho, mas não deixou de reconhecer a centralidade do investimento da libido humana nesta área. Perguntado uma vez sobre o que seria central na vida do ser humano, não hesitou em, responder: “amar e trabalhar”.A título de ilustração, escolhemos dois conceitos de Freud que exemplificam o que acabamos de dizer.
A sublimação, estudada por Freud como um mecanismo de defesa, consiste no fato de actividades humanas que não possuem qualquer relação aparente com a sexualidade (e aqui se pode incluir a criação artística, a investigação científica e o próprio trabalho), terem as pulsões sexuais e agressivas como sua força motriz.
Trata-se de uma derivação ou desvio da libido para um alvo não sexual, ou que expressa objectivos socialmente valorizados.
Em “O Futuro de uma Ilusão” Freud (1927/1997) considera que todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora acredite que esta é de interesse humano universal, por isso afirma que o homem não é espontaneamente amante do trabalho. Enuncia um conceito de civilização que abrange tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais.
Assim, a civilização inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das próprias necessidades e inclui tudo que é necessário para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível.
Em outra obra – “Mal-estar na Civilização” (1930/1997) Freud afirma que nós, homens civilizados, trocamos nossas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. A vida, segundo o autor, proporciona ao homem muitos sofrimentos, decepções, tarefas impossíveis de serem realizadas. Aspectos sócio-culturais, como o trabalho, são renúncias pulsionais colectivas em prol da sociedade, constituem uma medida paliativa na função de evitar do sofrimento (desprazer), fazem parte da sujeição ao princípio da realidade.
O sofrimento ameaça o homem em três direcções: o próprio corpo, fadado à decadência; o mundo externo, que pode voltar-se contra ele com forças de destruição e; o relacionamento com os outros, colocado como talvez sendo a fonte do sofrimento mais penoso. A defesa imediata contra este sofrimento seria o isolamento, porém que o melhor caminho é o de tornarmo-nos membros da comunidade humana.
Assim sendo, a relação entre o trabalhador e a organização do trabalho ocorre não apenas no plano consciente, mas em uma dimensão imaginária. Trata-se, segundo Freud, de uma relação que envolve “dor”, no sentido da ferida narcísica que provoca. Consequentemente, a demonstração de excessivo zelo pelo trabalho, assim como a necessidade de referências de gratidão e elogios, por parte dos alunos, podem significar tentativas de minimizar as duras condições de trabalho do magistério.
Em obra bastante conhecida, em que estuda um caso clínico de paranóia – o Caso “Schreber” (1910/1981) - Freud fala de um tipo especial de transferência, que o ser humano desenvolve em relação às instituições com as quais tem algum vínculo. Isto faz com que se relacione com elas, de forma antropomorfizada, atribuindo-lhes sentimentos, qualidades humanas, quase vida própria.
O mesmo acontece com os professores, em relação à escola: falam dela como se fosse a “segunda casa”, “um verdadeiro lar”, e estabelecem com os companheiros de trabalho e com os alunos relações fraternas e “quase parentais”, naturalmente permeadas por ambivalências de amor e ódio e por outros sentimentos e fantasias, presentes no relacionamento familiar. Trata-se de uma “faca de dois gumes”: da mesma forma que tais relações podem amenizar as agruras das condições de trabalho, geradoras do mal-estar docente, podem agravá-lo, com uma maximização de sentimentos de dor e de culpa, por exemplo.
Freud apresenta, em outro texto, o excesso de trabalho como uma das causas do enfraquecimento da intensidade da pulsão e do próprio Ego. Destaca, no mesmo texto, a tendência, nesse caso, a buscar satisfações substitutivas por outros meios. Esta tentativa, no entanto, não é bem sucedida. O autor critica a Psicanálise, por ter atribuído, a tais factores, pouca importância no desencadeamento da doença psíquica.
“Aqui temos uma justificativa da pretendida importância etiológica de factores não específicos, como o excesso de trabalho, os choques (emocionais) etc. A esses factores tem-se concedido aceitação geral, mas têm sido deixados em segundo plano pela Psicanálise. É impossível definir a saúde, excepto em termos metapsicológicos, quer dizer, pela referência às relações dinâmicas entre os factores do aparelho psíquico que têm sido reconhecidos – ou (se preferem) deduzidos ou conjecturados.” (Freud, 1937/1981a: 3346).

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Conflito-Cooperação

Conflito e Negociação de Pedro Cunha, publicado pela Asa
Uma óptima leitura nos tempos que correm.
Uma breve nota do prefácio à 1ª edição da autoria de Gonzalo Serrano - catedrático da Universidade de Santiago de Compostela:

"Entender pois o conflito como uma realidade presente e necessária não deve fazer-nos cair, na nossa opinião, em dois erros. O primeiro seria pensar que 'todo o conflito é necessário'; infelizmente, muitos conflitos são bastante inúteis na sua génese, delineamento e desenvolvimento, obedecem a razões espúrias e dificilmente se pode perspectivar neles a semente da mudança positiva ou construtiva para a realidade visada. O conflito em si, enquanto realidade social, é necessário, mas nem todos os conflitos têm que o ser.
Outro erro decorreria de uma concepção ingénua do conflito, assentando esta em esquecer que os conflitos produzem confronto, sofrimento e um sem fim de consequências negativas que estão na experiência comum dos indivíduos, das organizações e das nações.
Por tudo isto torna-se relevante fazer outras duas recomendações. Em primeiro lugar, prever o conflito, reconhecer as suas características de conflito latente e abordar aqueles problemas dos quais o conflito é um sintoma. Em segundo lugar, evitar a escalada do conflito que, no fundo, torna muito difícil a resolução do mesmo. "

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Valor da Resiliência


RESILIÊNCIA

Vou deter-me neste ponto, pois há quem pense estar condenado a ser desgraçado por toda a vida por lhe ter sucedido uma desgraça qualquer (maus tratos, violência, humilhação) na infância. Não é necessário ser muito sagaz para verificar que há muitos meninos no mundo (e muitas meninas, sobretudo muitas meninas) que suportam uma infância atroz. Vítimas da guerra, vítimas de maus tratos, vítimas de vexames, vítimas de abandono, vítimas da falta de amor... Umas crianças, de forma visivelmente aterradora. Outras, de forma camuflada, porém não menos cruel. Terão elas a sua vida destruída? Estarão marcadas para sempre? Não. Há que pôr fim ao fatalismo, ao determinismo, às crenças que engendram destinos sem regresso.
Boris Cyrulnik (2002) utiliza, como subtítulo da sua obra “Os Patinhos Feios”, uma frase que resume a sua tese de base: “A resiliência: uma infância infeliz não determina toda uma vida”. A resiliência é “uma propriedade que define a resistência de um material ao choque”. O autor utiliza o conceito como sinónimo de “resistência ao sofrimento”. Chama a atenção, tanto para a capacidade de resistir aos embates de natureza psicológica, como para o impulso de reparação psíquica que nasce desta resistência.
O autor desta obra tinha apenas seis anos quando conseguiu escapar de um campo de concentração, donde nunca regressaram os restantes membros da sua família constituída por judeus russos emigrantes. Sabe, portanto, muito bem do que está a falar. Sabe (por o ter aprendido no infindável livro da vida) o que é a resiliência. Neurologista e psiquiatra, este professor da Universidade de Var (França) é um dos fundadores da etologia humana e autor de numerosos livros.
A obra “Os Patinhos Feios” transmite uma mensagem de esperança a todas as crianças vítimas de maus tratos, da guerra, da miséria existente no seu meio envolvente. O autor defende que uma criança magoada não tem, necessariamente, de se tornar um adulto fracassado. Este livro é um grito contra o fatalismo, as sentenças definitivas, o carácter irremediável dos traumas. Cyrulnik diz-nos que não existem feridas incuráveis.
Há meninos que foram maltratados, violados, torturados. Há meninas que foram alvo de vexames, que foram brutalmente agredidas pelos próprios pais, pelos familiares, pelos amigos. É triste. É terrível. Muitas destas crianças arrastam consigo esta crença maldita: “a minha vida ficou marcada para sempre. Para mim já não há remédio. Os maus tratos terminaram, mas a sua recordação não acaba nunca”. Mas nem tudo está perdido. Há que insistir na possibilidade de as pessoas se recuperarem e viverem felizes.
Para que se produza um trauma há que ferir duas vezes. Uma vez com os factos, e outra com uma recordação torturante. A tortura não termina com o fim dos maus tratos. A vergonha de terem sido vítimas, o sentirem-se menos que os outros, a suspeita de que os outros não passaram por nada semelhante, o medo de que, a partir de agora, já nada poderá ser “normal”, não deixam de perseguir aqueles que sofreram maus tratos. A dor e a vergonha ficam sepultadas no silêncio.
Há meninas violadas pelos pais que engoliram o seu sofrimento, mantiveram as suas feridas abertas e a sangrar. Ameaçadas pelo medo ou pela humilhação, acabaram por se calar. E, inclusivamente, ao porem as suas mães ao corrente da desgraça que lhes estava a acontecer, obtiveram como resposta um convite ao silêncio, ou uma atitude infame de culpabilização: “Se calhar a culpa foi tua”. “Não gritaste”. “Não resististe o suficiente”. Ou, o que ainda é pior, sentiram-se forçadas a perpetuar uma cadeia de humilhações: “eu também passei pelo mesmo e calei-me”. “Para as mulheres a vida é assim”. “É a lei da vida”. “Há que engolir e calar”.
A evolução dos síndromas traumáticos varia: quadros agudos, negações que reaparecem anos mais tarde, quadros crónicos que estruturam a personalidade, identificação com o agressor, personalidade amoral, frigidez afectiva, culpabilidade torturante, desconfiança constante, psicologia do sobrevivente... São quadros incontestáveis. Mas é, também, incontestável a capacidade de superação. Ninguém tem um estigma indelével gravado na alma. Ninguém pode afirmar com propriedade: “eu cá já estou morto”.Como ajudar as pessoas a exercitar a resiliência? Há que chegar à convicção de que é possível sair do estado em que estamos, e que as nossas feridas podem ser perfeitamente sanadas. Uma ferida não constitui um destino irreversível. Há que caminhar na direcção certa. Para acabar com os maus tratos não basta interromper a tortura, mas é também necessário superar os seus efeitos devastadores. Para isso, é necessário recuperar a confiança em si mesmo e partir ao encontro dos outros. Com certeza que não é fácil. Mas é possível. Existem pessoas e associações que se dedicam a esta bela e extraordinária tarefa de curar, de salvar física e psicologicamente, de fazer com que as pessoas renasçam moralmente. Há pessoas e organizações que dedicam a sua vida a estender uma mão aos que jazem no fosso profundo da dor e da humilhação. Vão até eles a fim de os fazer viver “a possibilidade de dar e receber, de cuidar e ser cuidado”.
Para curar uma má relação é preciso intervir nos dois pólos que a constituem. Se se proporcionar à vítima um clima afectivo, esta poderá reagir mais facilmente. Entre muitas outras histórias, Cyrulnik conta-nos o que aconteceu com Pero. Esta criança tinha dez anos. Nunca tinha ido à escola. De facto, já não havia nenhuma escola nos arredores de Zagreb. A sua família tinha desaparecido. Sobrevivia há três anos numas barracas onde, de vez em quando, lhe iam deixar alguma comida. Para não sofrer demasiado com o desmoronamento humano que o rodeava, esforçava-se por atingir o estado de indiferença. Certo dia, uma professora reuniu algumas crianças e, ao pô-las a estudar, ficou espantada com as qualidades intelectuais de Pero. Confiou-o a uma família de acolhimento que o enviou para a escola. O distanciamento tornou-se para esta criança uma necessidade de adaptação. Bastava-lhe silenciar o seu passado para parecer um menino como os outros. Chamavam-lhe o “belo tenebroso”, pois permanecia silencioso sempre que à sua volta se falava da família ou da vida íntima. E contudo, era alegre e jogava bem futebol. Rapidamente se tornou o primeiro aluno da turma...
O conceito de resiliência abrange os conceitos de elasticidade, dinamismo, recurso e bom humor. A atitude tem a ver com cada pessoa, com a sua forma de ser e reagir. E também com a cultura e o clima moral em que as pessoas se movimentam e respiram. Uma sociedade psicologicamente saudável transmite, por osmose, à pessoas vontade de viver. Paul Claudel, ao assistir ao colapso económico de 1929 nos Estados Unidos, descreve “a angústia que oprimia os corações e a confiança que iluminava os rostos”. Esta atitude mental face à tragédia marcou de tal forma a imagem do mundo que “se alguns homens de finanças chegaram a atirar-se das janelas, não posso deixar de crer que o fizeram na falaz esperança de fazerem ricochete”.
Há que terminar com a tortura, com os maus tratos, com as agressões que provocam dor às vítimas, que aviltam os responsáveis pelos maus tratos e que espalham o terror entre as testemunhas. Mas, no caso de tudo isto ter já acontecido, não nos podemos deixar vencer pelo desespero. As feridas podem ser curadas. Felizmente, as repercussões psicológicas não são irreparáveis. Ninguém está condenado para sempre.
A educação sentimental não consiste, pois, na inclusão duma nova “disciplina” no currículo. Trata-se de fazer com que uma das prioridades da escola seja o desenvolvimento emocional e a aprendizagem da convivência. Uma prioridade sentida por todos, assumida por todos e com a qual todo se sintam comprometidos.
Miguel Santos Guerra